J’Accuse 2021

Política

O caso Dreyfus ficou famoso por vários motivos, entre os quais, a célebre publicação de Émile Zola, em 1898, em forma de carta (J´accuse), em que ele ataca nominalmente os generais e outros oficiais responsáveis pelos absurdos que levou ao processo e à condenação de Dreyfus.

O J´accuse 2021 trata-se de um movimento particular, sem pretensões, que nomeia os responsáveis pelo (em breve) futuro genocídio no Afeganistão.

Mujahidins

Em 1994, o país estava destruído, com seus senhores de guerra feudais mandando nas regiões. Numa época de violência extrema, muitos afegãos apoiaram o Talibã (ou Taliban) achando que, sob seu comando, eles teriam paz. Em 1996, o grupo conquistou Cabul, colocando o Afeganistão como um emirado islâmico. Isso provocou o desarme da população, morte de “infiéis” e impuseram uma visão míope da Sharia, deixando afegãos, governos da região e o ocidente horrorizados. Esse mesmo grupo foi responsável pelo atentado, em 2012, contra a paquistanesa Malala.

Malala no hospital

No longínquo ano de 1987, o Talibã já governava o Afeganistão e o país foi tomado pelos Soviéticos que lutavam contra a tomada de poder de um certo pequeno, mas perigoso, grupo armado chamado Mujahidins, que pode ser traduzido como “combatente“, “alguém que se empenha na jihad (luta)” ou erroneamente traduzido como “guerreiro santo“.   O Mujahidin não é apenas um guerreiro religioso que cumpre cegamente os preceitos do Islã. Eles podem ser também aqueles que combatem pela pátria, por seu povo, por seu país, por sua família ou pelo bem comum. Lógico que eles podem atuar também no sentido religioso, dispostos a dar a própria vida em nome de Alá. E acreditam que a morte em combate será recompensada pelo paraíso e a benção do Todo-Poderoso.

De volta ao assunto, a então União Soviética tinha forte influência na política do Afeganistão. Quando o país se viu em perigo com a escalada dos Mujahidins, os Soviéticos o invadiram com grande poderio militar visando acabar rapidamente com estes que pretendiam governar o país. Acontece que e os Estados Unidos forneciam armas e todo o tipo de informação, colaborando com o Talibã e os Mujahidins, visando a derrota dos Soviéticos.

A resistência afegã nasceu na desordem, se espalhou, cresceu e venceu. Sempre de forma caótica. Os rebeldes Mujahidins não tinham uma liderança ou uma estratégia única: as decisões eram tomadas pelas próprias células que agiam sob um único propósito. Conforme a rebelião foi se desenrolando, a guerra ficou mais sofisticada, com apoio de países e foi crescendo de forma organizada.

Dez anos depois de iniciado o conflito (1989), também conhecido como a “Guerra do Vietnã Soviética“, os Soviéticos se retiraram e deixaram o problema para os americanos e seus aliados. E que problema !   Mal sabiam os americanos que eles estavam dando vários tiros nos próprios pés. Os mujahidins, sob um certo Osama bin Laden, acabariam formando uma célula ainda mais poderosa e fanática: a Al-Qaeda.

Antes simpática aos Estados Unidos e ao ocidente, essa célula cresceu mais rápido e ainda mais fundamentalista do que se imaginava e culminou com os ataques de 11 de setembro de 2001.

Com o pretexto de criar um mundo mais pacífico e menos perigoso, o presidente George Bush e seus aliados invadiram o Iraque para acabar com Saddam Houssein e, de quebra, tomaram o Afeganistão para dar um fim à Al-Qaeda.  Ainda tiveram tempo de descobrir o que o mundo já sabia: Saddam não tinha nenhuma das armas químicas que Bush usou como argumento para invadir o Iraque.

Não é preciso ser muito esperto para saber que você não pode tomar o poder num lugar que não querem que você tome o poder. Os iraquianos odiavam os americanos, assim como os afegãos. Impor um regime num desses países é o mesmo que pedir para ser morto ou expulso. E foi o que eles fizeram: lutaram contra os invasores até a morte. Após prender e executar Saddam, num momento ainda bem frágil da tal democracia imposta, os americanos retiraram as tropas do Iraque e deixaram os seus antigos ex-aliados, como os curdos, à mercê da própria sorte. Milhares deles morreram e outros tantos foram perseguidos, mutilados, presos e mortos.

Aeroporto de Cabul

Estão fazendo agora a mesma coisa com o Afeganistão. Os soviéticos foram embora logo que perceberam a “gelada” que iam entrar. Os americanos consideraram isso uma vitória contra os comunistas e ali permaneceram achando que tinham tudo sob controle. Agora eles vão embora rapidamente porque não conseguiram segurar os terroristas que eles mesmos criaram. E, quem vai pagar a conta, é o abandonado povo afegão que tenta fugir dos extremistas de jeito que dá.

É o J´accuse 2021.

Escrito em 16/08/2021.

Fontes:  reportagens da época e outros.

 

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