
Nobel Para Einstein
Por estranho que possa parecer, a mais revolucionária das teorias não foi premiada com o tão sonhado Prêmio Nobel. Einstein não foi eleito ou laureado, por assim dizer.

Entre as causas mais prováveis estão:
– Pouca gente a compreendia e, portanto, não acreditava nela. A “teoria da relatividade” era formada por inúmeras outras teorias e deduções, algumas desenvolvidas por Einstein e outros cientistas e que ainda não eram muito bem aceitas pela comunidade científica.
– Necessidade de evidências e comprovações experimentais. Muitos consideravam a “teoria” meramente filosófica.
– Parte dela foi confirmada em 1919, por Arthur Addington. Mesmo assim ela ainda era considerada por demais complexa e com aplicações nada práticas. Na época havia pouca ou nenhuma tecnologia para aplicá-la ao contrário de hoje em dia.
– Havia certa resistência política e teórica contra Einstein na época, influenciada por preconceitos contra ele, que era judeu, socialista e pacifista.
– A “teoria” ainda enfrentava grande ceticismo na comunidade.

Einstein foi indicado 62 vezes ao Nobel, mas o comitê esperou uma validação mais concreta de suas teorias mais revolucionárias, com boa dose de antissemitismo, pois o jovem Einstein, alemão e judeu, ousou enfraquecer as teorias do já endeusado Isaac Newton !

Um belo dia, um cientista inglês chamado Arthur Addington (que mais tarde se tornaria “sir”) resolveu provar (ou não) uma das teorias de Einstein, já imaginada por Newton séculos antes.
Newton dizia que a gravidade de uma estrela ou planeta com grande massa poderia “desviar” a luz do seu trajeto. Einstein preconizava que a luz caminhava sempre em linha reta e não poderia apenas ser atraída por gravidade, pois ela é uma onda eletromagnética e não tem massa. E, se não tem massa, não pode ser influenciada pela gravidade.
Para checar essa teoria, Addington bolou um experimento gigantesco. Descobriu que haveria um eclipse solar total na ilha de Príncipe, uma das ilhas do arquipélago São Tomé e Príncipe, na costa da África, que aconteceria em 29 de maio de 1919. Também mandou uma equipe reserva para a cidade de Sobral, em Pernambuco – Brasil, para observar o mesmo fenômeno. O experimento era simples: Com o Sol ainda bem longe do local onde haveria o eclipse, Addinton selecionou um estrela e mediu sua posição. Com o eclipse total, ele mediu novamente a posição da estrela, cuja luz passava agora por uma grande quantidade de massa: o Sol. Era necessário o eclipse para “apagar” a claridade do Sol que impediria Addington de observar a mesma estrela. Essas medições indicavam um desvio de cerca de 1,98″ de ângulo, o dobro previsto por Newton !

Vale citar que as condições meteorológicas na Ilha de Príncipe eram ruins e não permitiram fazer as fotografias, nem medições. Mas a equipe de Sobral teve muito mais sorte.
Com os dados muito bem calculados, Addington os apresentou à comunidade científica que discutiu os resultados, mas os aceitou e foram vistos como demonstração da Relatividade Geral sobre o modelo de Newton.
A notícia correu o mundo e foi aclamadíssima. Diz a lenda que esse fato também deu origem a uma história de que somente três pessoas conseguiam compreender a Teoria da Relatividade. Disseram isso a Addington, que brincou: E quem é a terceira?
Uma outra história conta que perguntaram a Einstein o que ele faria se Addington tivesse encontrado outros números. A resposta seria nada modesta: “Eu diria que o bom Deus está enganado“.
Mesmo assim, Einstein não foi premiado com o merecidíssimo Nobel e não desistiu. Buscou trabalhar com o efeito fotoelétrico, quando um metal emite elétrons ao ser exposto à luz (ou outra radiação eletromagnética). Ele demonstrou que a luz se comporta como partícula ou fótons. Um trabalho brilhante, digno de Albert Einstein, que o levou a receber o Prêmio Nobel de Física de 1921. O efeito fotoelétrico era uma descoberta “segura“, inquestionável e tinha aplicações práticas diretas e confirmadas.

É mais do que claro que o Nobel de 1921 foi um reconhecimento tardio da genialidade de Einstein e de maneira nada controversa.
O Nobel não poderia ficar sem Einstein.
Observações:
– Einstein não acreditava na Física Quântica porque ele mesmo dizia não compreendê-la.

– Ele era judeu, mas não tão religioso assim. Ele teria dito em 1926, numa carta a Max Born, que “Deus não joga dados”, para criticar a mecânica quântica, que insinuava a ideia de que o universo era regido pelo acaso. Dizem que ele não estava se referindo a um Deus Teológico, mas a um universo (deus) bem organizado. Stephen Hawking, físico britânico, posteriormente refutou Einstein, afirmando que “Deus não apenas joga dados, mas às vezes os lança onde ninguém pode vê-los”.
– É um mito que ele não era bom aluno de matemática. Pelo contrário.
– Einstein acreditava num Universo estático e seus cálculos não “batiam” com as órbitas das galáxias, o que o levou a introduzir um valor que ele chamava de “constante cosmológica”. Os demais cientistas e astrônomos insistiam que essa “constante” apenas corrigia o efeito de um universo em movimento, e não estático como ele imaginava. Ele mesmo concordaria, anos mais tarde, que esse teria sido seu maior erro.

– Nessa época Einstein era casado com Mileva Marić (1903-1919), uma das primeiras mulheres a estudar matemática e física na Politécnica de Zurique. Dizem que ela foi fundamental na “teoria”, mas nunca teve o reconhecimento e se divorciaram em 1919. Leia sobre ela clicando aqui.
– Para finalizar, a luz NÃO é atraída pela gravidade. Ela acompanha a curvatura espaço-tempo que é provocada pela gravidade. Imagine uma bola de boliche sobre uma cama. A bola seria um planeta ou uma estrela com grande massa e a cama, o espaço. Note que o peso da bola faz com que o colchão, ou espaço, se curve à sua volta. A luz apenas acompanha essa curva.
Texto de Renzo Grosso
