
O Futebol do Brasil Parou no Tempo ?
O pentacampeonato de futebol do Brasil na Ásia, em 2002, foi uma verdadeira saga ! A começar pelas eliminatórias em que o Brasil só se classificou na última rodada e lá se vão 20 e tantos anos do penta do Brasil, na Copa do Mundo de 2002. Pra quem não lembra ou não vivenciou isso, a seleção passou por grandes provações nas eliminatórias e quase ficou fora !
Tudo começou no dia 28 de março de 2000, num zero-a-zero contra a Colômbia. Naquele tempo, o técnico Vanderlei Luxemburgo comandou a seleção substituindo Zagallo. Antes de começar a briga, a seleção fez alguns amistosos e ainda ganhou o título da Copa América de 1999, no Paraguai, vencendo o Uruguai por 3 a 0. Depois disso a temida seleção brasileira perdeu Copa das Confederações para o México.
Nas eliminatórias, o Brasil empatou com a Colômbia, fora de casa, venceu o Equador e vários nomes já apareciam em destaque como Ronaldinho Gaúcho, Edílson, Roberto Carlos…
Aí vencemos a Seleção Peruana, em Lima, e decepcionamos no Maracanã, num empate em 1 a 1 com o Uruguai. A torcida da “temida” seleção já estava olhando atravessado para o time quando o Brasil perdeu para o Paraguai por 2 a 1.
O torcedor voltou a sorrir quando vencemos a Argentina por 3 a 1, aqui no Morumbi e isso parece ter colocado a seleção no rumo certo. Só que, em Santiago, o Brasil perdeu por 3 a 0 para o Chile.
Luxemburgo respirou no comando quando o Brasil goleou a Bolívia por 5 a 0 no Maracanã. O Brasil estava em péssima fase, marcando apenas nove gols. Contagem muito baixa para quem pensa em ser campeão e Luxemburgo foi para os Jogos Olímpicos com menos pressão, mas em situação bem desconfortável. Ele estava sendo denunciado pela Receita Federal e, entre outras coisas, havia uma CPI do futebol brasileiro que o incomodava. Na sequência de palhaçadas, o Brasil perdeu para Camarões e Luxemburgo, o emprego.
Emerson Leão assumiu, mas não comandou a seleção na voltas às Eliminatórias, quando o Brasil fez 6 a 0 na Venezuela. Leão estreou “à prestação” e venceu a Colômbia por 1 a 0, no Morumbi. Já nos minutos finais do segundo tempo, num horrível 0 a 0, a torcida perdeu a paciência e passou a atirar bandeiras do Brasil no campo.

Em seguida, perdemos para o Equador por 1 a 0 e foi a primeira vez que a seleção brasileira seria derrotada por eles. Depois empatou com o Peru por 1 a 1, em pleno Morumbi. A situação piorou muito e Leão foi demitido da seleção após perder o terceiro lugar para a fraquíssima Austrália por 1 a 0, num torneiozinho caça-níqueis pouco antes do mundial.
Felipão (Felipe Scollari) veio em seguida e logo percebeu a arapuca em que se meteu: O Brasil perdeu por 1 a 0 para Uruguai e continuou passando vergonha. À frente da Copa América, Felipão viu o Brasil ser eliminado por Honduras por vexaminosos 2 a 0, com direito até a gol contra.
Felipão foi a Porto Alegre e ali o Brasil venceu o Paraguai, já de volta às Eliminatórias. Mas perdeu da Argentina por 2 a 1, a torcida pedia o retorno de Romário e a cabeça do técnico. Felipão não deu a mínima e deixou Romário fora do time. O Brasil conseguiu vencer o Chile por 2 a 0, em Curitiba, mas perdeu para a Bolívia por 3 a 1, em La Paz.
Só faltava um jogo e, graças a Deus, era contra a Venezuela que, naquela época, era o grande saco de pancadas dessas eliminatórias. O Brasil precisava vencer para se classificar e venceu por 3 a 0 em São Luís. A seleção brasileira, tão temida, chegava na Copa de 2002, disputada na Coreia do Sul e Japão, como o reflexo do fracasso. Só que, agora, ela contava também com Ronaldo Fenômeno, com seu cabelo estilo Cascão, e conquistou o Penta que ninguém acreditava!!

Tudo isso para falar do quanto o futebol cresceu. Naquele tempo, os torcedores estavam com medo de ficar fora da Copa pela primeira vez na história, mesmo jogando em casa e contra a fraca Venezuela.
Na Copa de 1974, disputada na Alemanha, havia a seleção do Zaire que era chamada, carinhosamente, de “seleção alegre”. Isso porque estavam felizes de participar de uma Copa e não se incomodavam muito cada vez que tomavam um gol. E foram muitos. A situação do Zaire era tão dramática que, furioso com a humilhação internacional, o ditador Mobutu Sese Seko enviou guardas presidenciais para acompanhar a equipe e deixou um recado claro: se perdessem por mais de quatro gols de diferença para o Brasil no último jogo, os jogadores não poderiam voltar para casa. E o Brasil precisava vencer por pelo menos três gols de diferença para se classificar, o que colocou os zairenses em uma situação de vida ou morte. Só para continuar a história, o Brasil já vencia por 3 a 0, quando Rivelino se preparou para bater uma falta perigosa contra o Zaire. O zagueiro Ilunga Mwepu saiu da barreira antes da cobrança de falta e chutou a bola para longe. Foi o desespero para evitar um quarto gol e não para ganhar tempo. O time acabaria abandonado pelo regime e muitos terminaram na miséria. A história é longa e vale a pena saber mais.
O Zaire mudou de nome para Congo e, assim como a Venezuela, viu o futebol se desenvolver a ponto de “dar trabalho” para outras seleções mais fortes. Os africanos estão sendo cada vez mais valorizados no futebol mundial, vide a seleção da França que está repleta de jogadores descendentes das antigas colônias francesas na África.

Todo mundo aprendeu a jogar futebol e fizeram de tudo para isso. A fraca Venezuela já não é mais tão fraca assim: o Brasil ainda ganha deles, mas o time de 2002 jogando aquela “bolinha” contra a Venezuela de hoje, daria calafrios até ao mais otimista. Quanto aos africanos, eles tem grande resistência e força, mas ainda falta a técnica. Quando aprenderem isso, ninguém mais segura !
As fortes equipes sul-americanas, especialmente do Brasil e Argentina, não são páreo para os europeus. Nos últimos quinze campeonatos mundiais, só europeus levantaram a taça. E isso só vai piorar se o Brasil não acordar, pois os africanos já estão acordando.
Agora, quanto ao hexa…
Texto de Renzo Grosso
NOTAS:
– Não sou grande fã do Leão, mas ele foi um dos primeiros a reclamar da Jabulani, a bola oficial da Copa da África do Sul. Ele afirmava que a bola não era confiável e também um tanto estranha. Dito isso, os repórteres foram procurar Muricy Ramalho, que desdenhou Leão, dizendo que “realmente a bola é estranha… ela é redonda…” e todos riram. Pouco tempo depois a Fifa reconheceu as reclamações dos jogadores europeus e “aposentou” a bola depois da copa. Segundo eles, a bola, que era também o “terror dos goleiros”, era ironicamente “redonda demais”, muito lisa para conseguir seguir em linha reta e fazia trajetórias “fantasmagóricas”. Isso tudo fazia dela uma bola imprevisível e rápida demais. Mas ninguém lembrou de se desculpar com Leão.

– A seleção masculina de vôlei do Brasil, deu vexame na última VNL, ao ser despachado para casa ainda nas oitavas. O Brasil precisava de apenas UM set contra a Sérvia para manter alguma esperança de avançar e perdeu por 3 a 0. O narrador dizia, logo após o Brasil perder o primeiro set, que era normal perder algum até se adaptar às condições locais. Só que não disseram isso para a Polônia, Sérvia e outras que não perderem nenhum. E ontem eu ouvi a mesma bobagem: tal time não está jogando tudo o que pode porque “ainda está se adaptando”. Sei, sei… Um time de ponta como o volei ou o futebol do Brasil deve mostrar garra sem limites e não pode jamais depender dos adversários.
– O Brasil ainda é o país com maior número de títulos mundiais, com cinco. Só a Itália e a Alemanha tem quatro cada. A Itália está fora da Copa e não alcançará o Brasil nesta edição de 2026, mas a Alemanha poderá igualar a seleção canarinho caso seja a vencedora. E, se isso acontecer, ela terá todo o protagonismo que o Brasil não teve.
