A Superação do Esporte no Brasil

Diversos

Até parece que o Brasil é mesmo o 12º país que melhor trata do esporte no mundo.  Pelo menos é essa a conclusão que se pode chegar analisando a colocação no quadro de medalhas de Toquio-2020.
Não importa sob qual critério: seja pelo número de ouros (7), seja pelo total de medalhas conquistadas (21).  E o melhor: foram em 13 esportes diferentes.

Algumas medalhas certas não vieram ou vieram com outra cor.
– O futebol da lógica, trouxe o ouro.
– O vôlei, que tem sido o nosso esporte mais admirado e querido depois do futebol, seja na quadra ou na praia, parou numa pífia 4ª colocação no masculino de quadra, nenhuma na praia e uma prata suada no feminino de quadra.  Suada porque as meninas chegaram a uma decisão em que não eram cotadas nem entre as cinco primeiras.   Comemoraram a prata como se fosse ouro.

– O judô manteve a escrita e nos deu algumas alegrias.
– A vela nunca deixa a desejar e trouxe o ouro de Martina e Kahena.
– A natação ainda vibra com os bronzes de Fratus (50 m) e Scheffer (200 m) e o ouro da Ana Marcela nos 10K.
– A canoagem é o ouro de Isaquias.
– O boxe é o ouro de Hebert Conceição, a prata de Beatriz Ferreira e o bronze de Abner Teixeira.
– No salto com vara, o desacreditado Thiago Braz ainda trouxe o bronze.

E temos ainda as medalhas inéditas com a Rebeca Andrade (ouro e prata), a Raissa, Kelvin e Pedro Barros (skate) e o ouro de Ítalo no Surf.

Isso sem falar do bronze de Laura Pigossi e Luisa Stefani no tênis.

O país pode se orgulhar, sim, de seus atletas.  A maioria deles é fruto da superação, já que o Brasil não consegue suprir tamanha deficiência nos investimentos e estrutura.

O Brasil está focado no futebol masculino e, a exemplo da Olimpíada do Rio, Galvão Bueno esperava impaciente a apresentação dos atletas brasileiros em Tóquio com vistas claras aos jogadores de futebol masculino.

Deixando de lado o futebol que também vem das camadas menos favorecidas, vários atletas conquistaram seu lugar na delegação com o suor e muita vontade de competir.  Não faltam exemplos.  A Rebeca Andrade dependia de um auxílio na condução que era dado pelos técnicos onde ela começou a treinar em Guarulhos.   A Raissa só ganhou um skate depois que o pai conseguiu juntar R$ 120,00 para comprar um.  Ítalo Ferreira aprendeu a surfar na tampa da caixa de isopor transformada em prancha.  O atletismo e tantos outros esportes só são lembrados na época de uma Olimpíada.

Em outros casos a responsabilidade é mesmo do atleta: alguns dos melhores atletas brasileiros se recusam a participar de uma eliminatória visando os jogos olímpicos.  Acham sempre uma desculpa com lesões, cansaços e uma porção de bobagens.  E, não contar com eles nessa fase, faz  a diferença e um determinado esporte pode ficar fora dos jogos.

Guilherme Paraense

O Brasil fez bonito em 2005 ao instituir o Bolsa Atleta, que rendeu boas colocações nos jogos de Londres, Pequim e Rio.  Mas esse incentivo foi cortado em 2017 e o que vimos em Tóquio ainda é um resquício dele.   Talvez ainda sobre um pouco de energia para Paris 2024 e não há chance alguma em Los Angeles 2028.

A China vem investindo pesado no esporte para ser a grande medalhista nas próximas Olimpíadas e os Estados Unidos continuam fazendo o que já fazem há décadas.

Não adianta fazer comparações com os países ou atletas de alto rendimento.  A cultura norte-americana idolatra os jovens atletas que se destacam nas escolas ou universidades.  Os jogos universitários são grandiosos e muito competitivos.   Quando um estudante de uma universidade menor começa a se destacar, um olheiro já está ali para levá-lo para outro lugar, maior, com mais estrutura e com uma bolsa de estudos.  Um atleta compete pela sua escola e não pelo seu clube.

No Brasil, a coisa é bem diferente.  Caso o atleta queira treinar em alguma modalidade, ele deve procurar um clube que a ofereça.  Ou uma das paupérrimas academias públicas da sua cidade e torcer para que alguém o “descubra”.  Aí ele vai para um clube decente que lhe dará um mínimo de condições para treinar.

Foi o caso da Rebeca Andrade que foi “descoberta” por um olheiro e levada ao Clube Pinheiros.

O desabafo de Alison (do vôlei de praia), após a derrota para a Letônia, deu um recado bem claro: faltam investimentos.  Como sempre.

E mais: dos 300 atletas brasileiros que foram para Tóquio, cerca de 60 competiram sem nenhum patrocínio e outros 40 foram para lá à custa de “vaquinhas“.  Precisa falar mais?

O Brasil conseguiu destaque como seu melhor resultado numa Olimpíada em dois esportes que estrearam: o skate e surfe.   Tire esses dois e despencaremos na tabela.

Em 1972 o mundo olhou para um atleta americano chamado Mark Spitz.  Ele tinha como meta ganhar todas as medalhas de ouro da natação, ou sejam, sete.  E ganhou.  Ele venceu todas as competições de natação em uma única olimpíada, fato repetido depois por Phelps e companhia.   Se considerarmos que, nessa época, o Brasil tinha três medalhas de ouro conquistadas em TODAS as Olimpíadas desde a Antuérpia em 1920, só fica mesmo a vergonha.

Mark Spitz

A primeira medalha de ouro do Brasil veio com Guilherme Paraense no tiro com pistola, em 1920.  Detalhe: a delegação brasileira foi roubada e competiu com pistola e munições emprestadas pela delegação americana, depois de uma verdadeira odisseia para chegar em Antuérpia!

Não se engane em pensar que o Brasil é uma potência esportiva pelo 12º lugar conquistado em Tóquio.  Fora o futebol, o esporte ainda é uma questão de superação individual que apenas ilumina a falta total de estrutura, investimentos e o total desprezo aos esportistas.  As federações dos países estão sempre preocupadas com patrocínios e com o dinheiro, mas não deixam de lado os seus atletas.  Aqui parece que a coisa toda só é movida pelo dinheiro.   Veja os escândalos que aparecem todos os dias nas federações.

Os americanos podem se dar ao luxo de colocar uma Simone Biles na reserva só porque “ela não está bem emocionalmente“.  E a imprensa aplaude e se condói com a deusa que também tem seus dias de mortal.  Não foi o caso da Fabiana Murer, em Pequim-2008.   Ela levantou questões semelhantes e a imprensa brasileira a chamou de “amarelona”.

Faltam cuidados maiores com esportes e atletas que não sejam do futebol.

É a tática do “vamos lá e seja o que Deus quiser”.  E às vezes Ele quer!

 

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