Considerações de Um Não-Político

O mundo já presenciou inúmeras revoltas, golpes e revoluções tratados sob a efígie da “vontade popular”.

As revoluções do povo, para o povo ou pelo povo, em geral se resumem a entregar o poder a um grupo ainda pior do que aquele que ele deseja derrubar.   Não há notícia de alguma reforma dessa natureza que tenha trazido o bem à população.

A revolução francesa (1789) matou seus líderes – esfaqueou Marat na banheira, decapitou Robespierre e Danton – e levou a França à era mais sangrenta da sua história.

A revolução bochevique (1914) matou a família Romanov e Stalin acabou com mais de 20 milhões de soviéticos.

A revolução cultural (1911-1945) de Mao-Tse-Tung eliminou a dinastia Manchu e mais de 50 milhões de chineses.

E ainda temos a cubana, a espanhola, a primavera árabe, as africanas…

Em todos esses casos, a população se viu enganada pelos revolucionários que, por ganância ou puro preciosismo, distorceram os ideais e abusaram da força bruta para manter o controle do mesmo povo que os aplaudiu.   Muito diferente dos levantes populares que fizeram ditadores deixarem o poder numa transição pacífica e democrática.

Em Portugal, a Revolução dos Cravos contra o regime salazarista de Marcelo Caetano, foi um bom exemplo de transição pacífica sem disparar um único tiro.   Franco, na Espanha, restaurou a monarquia com Juan Carlos, depois de quase quarenta anos de mortes e violações dos direitos individuais.

Nos anos sessenta e setenta, a América Latina presenciou todo o tipo de perseguição política em quase todos os países.

No Brasil, tivemos o movimento pelas “Diretas Já” (1983) promovido pelos senador Teotônio Vilela e o então MDB, de Ulisses Guimarães, somada às hordas estudantis e inúmeros políticos de primeira grandeza.  Numa votação que varou a madrugada, o congresso resolveu não realizar as eleições diretas para presidente, mas já havia em curso a abertura política, promovida pelo então presidente Figueiredo, apesar do atentado ao Riocentro em 1981.

No entanto, naquilo que poderia parecer uma conspiração pela democracia, os anos 80 levaram a mesma América Latina de volta às eleições livres e ao respeito às liberdades individuais.  Se bem que, recentemente, alguns desses países estão se distanciando novamente dela.

O mesmo não se aplica àqueles países da chamada Primavera Árabe, que continuam a dividir o poder matando seus opositores.  A paz está longe de acontecer, já que a democracia nem sempre pode ser instituída onde o estado e a religião caminham juntos.

Esses ideais revolucionários não deram certo.  E “dar certo” significa trazer de volta ao povo amargurado e sofrido aquela tão sonhada dignidade, ceifada durante décadas pelos governantes inescrupulosos ou coisa assim.

O poder inebria os comandantes.

NE: “Considerações de Um Não-Político“, 1918, (Betrachtungen eines Unpolitischen) é uma obra de Thomas Mann.

Imagem: “A Liberdade Guiando o Povo”, (La Liberté Guidant le Peuple), 1830, de Eugène Delacroix

 

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