Planeta Fome

Dias atrás, vi no Supermercado Extra uma situação pra lá de absurda: uma funcionária da padaria estava colocando os pães da vitrine num saco preto. Em seguida ela amarrou o saco e jogou no lixo. Eram pães ainda frescos, com poucas horas, que foram para o lixo. Isso num lugar, o Itaim Bibi em São Paulo, que é uma área considerada nobre e lotada de gente nas ruas mendigando uns trocados.

Mal falei com a atendente que respondeu “é assim mesmo.”

No Carrefour da Pamplona, perguntei o que eles faziam com todos aqueles pães e doces que não vendem, pois a quantidade de produtos expostos é enorme (veja a foto). Ela respondeu que o pão francês ainda pode virar farinha de rosca e alguns produtos e doces vão para o lanche dos funcionários. Ela diz que “provam” o produto e, se não estiver azedo ou ruim para consumo, eles mesmos comem. Mas ainda sobra muito.

Eu já estava sem palavras com tamanho desperdício de comida quando ela me disse que na seção de frutas e legumes é ainda pior. Disse que são mais de 20.000 produtos “descartados” por semana. Isso em uma única loja. Imagine em toda a rede. Ou em todos os supermercados. Ou ainda, some tudo isso com as milhares de padarias da cidade de São Paulo. E isso sem considerar o que já foi descartado pelo produtores, intermediários, etc…

É um choque !

Perguntei se isso tudo não poderia ser doado ou reaproveitado, já que existem muitas instituições que gastam uma fortuna em alimentação para manter seus internos. Ela respondeu que alguma coisa é, sim, doada ou reaproveitada, mas grande parte tem a lata de lixo como destino.

Há cada vez há mais fome e pobreza no mundo. Apesar disso, muito do que é produzido é desperdiçado pois, apesar de ser saborosa e de qualidade, não tem o aspecto perfeito como a cor, o formato e tamanho que os consumidores preferem.

Portugal e França tem organizações que cuidam um pouco desse desperdício. Em Portugal existe uma ONG chamada “Fruta Feia” (frutafeia.pt) que recolhe tudo aquilo que é descartado por causa da má aparência. Esses produtos são adquiridos por um valor bem abaixo do mercado e repassados, também bem abaixo do mercado, para pessoas que não se importam em tirar uma manchinha da fruta antes de comê-la. Essa ONG e seu trabalho já foram mostrados num programa da GloboNews.

Mesmo esse tipo de atividade requer investimentos e capital de giro para bancar a coleta e a distribuição dos produtos.

Não pense que esse desperdício é uma mera questão de “bem atender” o público com produtos de alta qualidade. Nós pagamos por ele. Esse custo, bem como de eventuais furtos, estão embutidos nos preços que todos nós pagamos.

Ainda estou chocado. Enquanto isso, o mundo passa fome.

Obs:
O novo disco de Elza Soares, com a arte de capa do cartunista Glauco (que morreu assassinado com o filho), tem o sugestivo nome de “Planeta Fome”.

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