Na Outra Margem da Memória

Ouvir o “Quebra Nozes” ou o “Lago dos Cisnes” de Tchaikovski na época de Natal não é novidade para ninguém. Falar sobre isso é sempre um tema difícil, quando não enfadonho, por se tratar de um assunto que as pessoas não dão a devida atenção, provavelmente porque a educação brasileira não prepara ninguém para os clássicos da música e das artes de uma maneira geral. Já é difícil até ensinar a ler…

Conversar com mulheres na faixa dos 50 anos dá uma boa impressão do que foi a educação musical recebida por elas na adolescência. Estamos falando dos anos 60 e 70 em que proliferavam os conservatórios musicais lecionando piano e a quase obrigação de frequentar um curso de dança ou balé clássico. Isso proporcionou uma certa cultura que não se vê mais hoje em dia.

A discussão é simples já que envolve mães e filhas que tiveram educação ou valores diferentes conforme a época que viveram. Não é o mesmo que aprender a cozinhar. Essas mulheres ainda se lembram das lições de dança e das óperas que apresentaram nos anos em que cursaram escolas como o “Ballet Ruslan”, do bailarino e coreógrafo ucraniano Ruslan Gawriljuk, não por acaso, a maior referência do ABC paulista nessa arte.

Não sei ao certo como começou a conversa, mas falávamos sobre música clássica e me surpreendi com a qualidade da discussão que envolvia justamente a memória musical vinda através desses conservatórios e escolas.

Hoje em dia não é a mesma coisa. A música saiu dos pianos para os violões e baterias, os conservatórios minguaram e as bailarinas são escassas. Poucos jovens são atraídos pelos instrumentos menos comuns como violinos, flautas e trompas provavelmente porque não veem razão para levar adiante um aprendizado que não terá futuro ou, mais prosaicamente, não interessa aprender.

Até pouco tempo atrás, com quase 70 anos, Ruslan levava seu violino até uma rua em São Caetano do Sul e ali tocava acompanhado em playback com um aparelho de som portátil. Ele afirmava que “as pessoas são carentes de boa música”. Com esse mesmo propósito, depois de passar por uma cirurgia no coração que o afastou da dança, ele passou a fazer apresentações frequentes no HCor acompanhado de outros músicos. Também levou a música para as UTIs e centros pediátricos.

A família Gawriljuk desembarcou no Rio de Janeiro em 1949. Logo seguiram para São Paulo e se estabeleceram em Santo André. Aos 7 anos, Ruslan começou estudar violino e, aos 14, fez parte da Orquestra Sinfônica de Santo André, dirigida por seu pai, Stanislaw Gawriljuk. Mas a dança sempre falou mais alto e ele passou pelo Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo, Cia. do Rio de Janeiro onde interpretou Dom Quixote, Lago dos Cisnes, Coppélia, Le Sylfide e outros clássicos e se apresentou com diversas grandes bailarinas. Fundou a Academia Ballet Ruslan, em Santo André, em 1962.

A música clássica não é exatamente uma preferência brasileira, apesar das multidões que acompanham as orquestras sinfônicas que às vezes se apresentam nos parques. Deve ser porque esses espetáculos são gratuitos e vão sempre de encontro ao público e não o contrário. O que diria, então, de uma ópera ? Veja este finalzinho da ópera “Príncipe Igor” do russo Borodin. Vale a pena !

 

NE: “Na outra margem da memória“, de 1966, é a autobiografia de Vladimir Nabokov.

 

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