
Noite dos Punhais Ou Noite das Facas Longas
O nome já diz muita coisa: o punhal é a arma símbolo da traição e, com esse nome, Hitler fez o primeiro grande expurgo das fileiras nazistas, assassinando oficialmente cerca de 80 pessoas, entre oficiais e soldados alemães em 1934.

Hitler foi convencido por Himmler, o todo-poderoso do nazismo e chefe da SS, de que Ernst Röhm, então chefe da Sturmabteilung, abreviada como SA e organização paramilitar original de Adolf Hitler e do Partido Nazista, estava se preparando para dar um golpe de estado e destituí-lo do poder. O termo Sturmabteilung, era anterior ao nazismo e aplicado às tropas de assalto do então Império Alemão.

Não era apenas conversa fiada de um maluco ciumento do enorme poder que a SA representava, pois estava “recrutando” milhões de pessoas em toda a Alemanha. E não eram apenas soldados: havia todo o tipo de gente que se somavam e apoiavam a SA e, consequentemente, Röhm.
Com essa história e alguns documentos forjados, Himmler convenceu Hitler que haviam dezenas de traidores muito próximos a ele. Röhm, o principal, era homossexual e Hitler bem sabia disso, mas o tolerava por conta de sua lealdade e capacidade militar.
Quando Hitler e os nazistas subiram ao poder, os oficiais da SA, entenda-se Röhm, também o queriam. Em 1933, a SA já tinha mais de três milhões de homens querendo substituir o Reichswehr (forças armadas alemãs que operaram durante a República de Weimar, que durou de 1918 a 1933). Röhm queria um exército na SA, que a Lei vigente não permitia e, desse ponto até um novo “exército popular”, seria um pulo. Isso ameaçava Hitler que também queria o Reichswehr e esse poder cada vez maior da SA ameaçava também outros oficiais nazistas. Para restringir um pouco o poder das SA, a Schutzstaffel (SS), que era uma parte dela, foi passada para o comando de Heinrich Himmler em 1929. Com isso, Himmler levou a SS a executar as políticas de Hitler, incluindo as de natureza criminosa.
Hitler ainda tinha boas razões para remover Röhm. Muitos de seus apoiadores estavam reclamando dele e os oficiais não queriam que ele e sua SA fosse absorvida, mesmo que sob o comando de Hitler, a um Exército Alemão muito menor.

Hitler achava que Röhm e a SA pudessem tirá-lo do comando. Foi quando Göring e Himmler arquitetaram o plano genial e alimentaram esse medo de Hitler com informações, muitas vezes falsas, a respeito de um golpe por Röhm. Eles disseram que Gregor Strasser, nomeado por Hitler em 1928 como líder organizacional, o havia traído e estava conspirando com Röhm. Assim, um assustadíssimo Hitler chamou os líderes da SA para se reunirem no Hotel Hanselbauer em Bad Wiessee na noite de 30 de junho de 1934.

Hitler chegou a Bad Wiessee, prendeu Röhm pessoalmente e vários outros do alto escalão da SA. Nos dias seguintes cerca de 200 oficiais da SA também foram presos. Vários foram mortos tão logo capturados, mas Hitler perdoou Röhm por conta de seus serviços prestados. Em 1º de julho, pressionado por Göring e Himmler, Hitler resolveu que Röhm deveria ser morto. Hitler argumentou que Röhm deveria ter o “privilégio” de cometer suicídio e, não o fazendo, seria executado. Como se esperava, Röhm não se suicidou e foi executado por Theodor Eicke e Michael Lippert, dois oficiais da SS. Fala-se em 85 vítimas, mas supõe-se de que o número total de mortos tenha ficado entre 150 e 200 homens.
Nos dias seguintes, a propaganda de Goebbels destacou o “Röhm-Putsch” (Golpe de Röhm) e sua homossexualidade foi tornada pública a fim de somar um pouco mais de “choque“. Hitler e seu novo regime não tolerava o homossexualismo e, tanto ele como vários outros nazistas, sabiam sobre Röhm e de outros oficiais da SA. Mas nada relevaram porque lhes interessava.

Na verdade, Hitler sobreviveu mais de quarenta atentados e muitos deles planejados por forças internas e seus próprios oficiais, sem falar nos graves ferimentos que Hitler sofreu na Primeira Guerra Mundial. Estes foram os principais atentados:
– O Atentado da Cervejaria (8 de novembro de 1939): O ativista Georg Elser colocou uma bomba artesanal em uma coluna na cervejaria Bürgerbräukeller, em Munique, onde Hitler iria discursar. Mas Hitler encurtou seu discurso e deixou o local 13 minutos antes da detonação, por conta de condições climáticas. Mesmo assim, a explosão matou oito pessoas e feriu outras 63.
– A Bomba no Avião (13 de março de 1943): Membros da resistência militar alemã, com o apoio do General Henning von Tresckow, colocaram uma bomba no avião de Hitler. A caixa estava disfarçada com garrafas de conhaque e a bomba deveria explodir durante o voo. Mas o detonador falhou devido ao frio e a bomba não explodiu.
– O Atentado de 20 de Julho de 1944 (conhecido como a Operação Valquíria e o mais conhecido): Foi organizado pelo alto escalão da Wehrmacht. O líder da operação era o Coronel Claus von Stauffenberg, que colocou uma bomba escondida em uma pasta no quartel-general de Hitler, na então Prússia Oriental. Hitler sobreviveu com ferimentos leves porque a pasta estava atrás de um dos pés maciços da mesa de carvalho, o que atenuou bastante os efeitos da bomba. Ao ouvirem a explosão, acharam que Hitler estava morto e tentaram tomar o poder. A Operação Valquíria tinha como objetivo principal assassinar Adolf Hitler e, em seguida, utilizar o próprio Exército de Reserva alemão para tomar o controle do governo, desarmar a SS e prender a cúpula nazista. Os conspiradores, liderados pelo coronel Claus von Stauffenberg e outros oficiais da Wehrmacht, buscavam encerrar a Guerra e negociar um armistício imediato com os Aliados para evitar a destruição total da Alemanha. Este fato foi retratado num filme de 2008, dirigido por Bryan Singer, com Tom Cruise interpretando Claus von Stauffenberg.
Não se pode imaginar o que aconteceria se um desses atentados tivesse dado certo. O fato é que Hitler sobreviveu à guerra até cometer suicídio em seu bunker em Berlim, em 1945.
Curiosidades:
– Para quem gosta da cine-série Star Wars, o termo “StormTropper”, aqueles soldados do Império Galático vestidos com armaduras brancas, foi inspirado nas tropas de elite alemãs da primeira guerra mundial chamadas de Stoßtruppen.

– Himmler também cometeu suicídio após a rendição da Alemanha, em 1945.
– Hitler quase morreu em, pelo menos, dois momentos da Primeira Guerra Mundial:
– Batalha do Somme (1916): Ferido gravemente por estilhaços de artilharia britânica, que o obrigou a ficar meses em recuperação num hospital.
– Ataque de Gás Mostarda (1918): Semanas antes do fim da guerra um projétil de gás mostarda atingiu o local onde estava. Ele ficou temporariamente cego, teve as vias respiratórias queimadas e precisou ser internado novamente. Não retornou mais à guerra e viu a Alemanha capitular.
Texto de Renzo Grosso
