Darién Gap – O Terrível

Diversos

Você sabia que existe uma rodovia chamada Panamerican Highway ou Rodovia Pan-Americana ? Não ? Pois é, ela existe e não é nada convidativa. São mais de 30 mil quilômetros interligando as américas. Ela começa em Prudhoe Bay, no Alasca e deveria terminar em Ushuaia, na Argentina, mas no meio do caminho existe o temido Darién Gap (ou brecha, lacuna… de Darién). Mas não é apenas ele: à medida que você dirige em direção ao sul, a estrada e os locais que você vai passar vão ficando cada vez mais perigosos. A Panamerican Highway deveria interligar os continentes, mas ela termina nesse ponto e só recomeça de verdade em território colombiano. O nome vem do rio Tanela, que foi chamado “Darién” pelos conquistadores europeus no século XVI.

Carro abandonado

O Darién Gap (veja o mapa) é uma região terrível entre o Panamá e a Colômbia, tem cerca de 160 km e é uma das rotas mais perigosas do mundo. A Rodovia Pan-Americana para por aí e só continua novamente já em território colombiano até chegar em Ushuaia. Há relatos de quem conseguiu chegar até ali e atravessou até a Colômbia por mar, pois havia um serviço de balsas que deixou de funcionar há alguns anos por não ser nada lucrativo.

Esse trecho é mesmo uma interrupção rodoviária porque consiste em uma floresta tropical densa, pântanos, montanhas íngremes, rios turbulentos e a total falta de infraestrutura tornam o ambiente tão hostil e impenetrável que tornou impossível a construção de uma estrada.

Aventureiros com o Land Rover

Além de tudo isso, ele ocupa cerca de 26.000 quilômetros quadrados de selvas e pântanos e é a casa de vários grupos guerrilheiros. Não dá para impedir a entrada de turistas ou exploradores malucos nesse local até por conta da vasta área que ele ocupa. Não existem estradas ou trilhas e é improvável conseguir atravessar essa região usando um veículo, mesmo que bem adaptado. Até os que tentam cruzar à pé vão ter problemas.

Ilha Cartí Sugdupu ou Gardi Sugdub

Mas uma luz surgiu em 1971 quando um acordo entre os países da América do Norte e do Sul, os Estados Unidos resolveram completar uma estrada através do Darien Gap. Mas o sonho acabou em 1974 quando os EUA, confrontados com doenças, animais, insetos, guerrilhas e outras coisas, abandonaram o projeto.

Em 1960, alguns aventureiros usaram um Land Rover e conseguiram atravessar a região. Outro grupo tentou, com sucesso, novamente em 1971. Foram cerca de cinco meses só para atravessar o Darien Gap e a maioria dos que tentam tem muito pouco sucesso. Motociclistas e andarilhos já a atravessaram a pé ou de moto, mas além de muito perigoso, ainda exige, entre outras coisas, o pagamento de guias locais. Isso não impede que você “desapareça” ao cruzar com um grupo de traficantes, contrabandistas e todo tipo de criminoso que vive por ali e tem o respaldo da total falta de policiamento.

Geograficamente, o Darién Gap é uma barreira física que impede qualquer pessoa com bom senso em fazer a travessia. Essa região possui ecossistemas protegidos e tentar construir uma rodovia passando por ali iria gerar grandes impactos ao meio-ambiente, além da própria biodiversidade. Existem vários povos nativos, como os Guna (ou Kuna), os Emberá e os Wounaan, que vivem e cruzam a região há centenas de anos e conhecem o local melhor que ninguém. Aliás, vale a pena frisar que aquele símbolo que conhecemos como “suástica nazista” já era usado pelo povo Guna bem antes da Segunda Guerra, para representar a criação do mundo e os quatro pontos cardeais. Eles a chamam de “Naa Ukuryaa” e o arquipélago ou ilha em que eles vivem, Cartí Sugdupu, deverá ser “engolida” pelo mar até 2050.

Migrantes tentando atravessar
Índia Guna e a Suástica

Enfim, o Darién Gap é bem conhecido como uma das rotas mais mortais das américas e, pasmem, são usadas por refugiados e migrantes para chegar aos Estados Unidos. O calor é intenso, a humidade é absurda, muita chuva, rios com forte correnteza, animais de todo tipo e crimes. Muitos crimes. Quem manda por ali são as facções e cartéis, que se aproveitam desses coitados sem opções com extorsões, roubos e violência. Em alguns pontos pode-se encontrar alguém da ONU ou de associações humanitárias, como o Médicos Sem Fronteiras, recebendo os migrantes que, por pura sorte, conseguem sair da selva.

Texto de Renzo Grosso

 

 

Créditos das fotos:
Migrantes
Médicos sem Fronteiras

Deixe um comentário