
Dolores Hart
Ela era uma atriz californiana de 19 anos que conheceu Elvis Presley num set de filmagem e foi a primeira a beijá-lo num filme de Hollywood. Ela ainda faria outros dez filmes e um deles que lhe renderia uma indicação ao Tony. Dona de uma carreira brilhante e sem limites, ela conhecida como a próxima Grace Kelly.


Dolores morava em Nova York e era noiva de Don Robinson, um homem que a amava incondicionalmente e já imaginava um futuro com sua amada. Até um vestido de noiva chegou a ser confeccionado por Edith Head, famosa figurinista da época.
Ela tinha tudo: um ótimo papel de coadjuvante ao lado de Elvis em “Loving You” (Amor à Primeira Vista), de 1957, e depois em “King Creole” (Balada Sangrenta), de 1958. Encenou com Montgomery Clift em “Where the Boys Are” (Onde os Homens São Homens), de 1960, que se tornou um marco cultural.
Corria o ano de 1959 e ela, cansada de tanto trabalhar, acabou aceitando a sugestão de uma amiga para passar uns dias numa abadia beneditina. A abadia se chamava Regina Laudis (ou Rainha do Louvor), na cidade de Belém, em Connecticut. Muito a contragosto, ela foi e nunca ela se sentiria tão bem. O que deveria ser uma pequena pausa do trabalho, se tornou um local maravilhoso e ela voltava sempre que podia e, a cada vez, ficava mais difícil ir embora.

Em 1961, o trabalho a levou a Roma para as filmagens de São Francisco de Assis. Lá ela esteve com o Papa João XXIII e voltou para casa transformada de uma maneira que não conseguia descrever. Sua nova compreensão da vida viria durante uma caminhada em direção a uma cruz na Abadia.
Mas ela tinha um noivo: Don. Ele era católico e, mesmo inconformado com a decisão de sua amada, deu-lhe a bênção. Ele diria, anos depois, como estava se sentindo: “Devastado. Está brincando? Sou um ser humano. Eu a amei profundamente e ainda a amo.” Don faleceu em 2011, nunca se casou e sempre foi até a abadia todo Natal e toda Páscoa. Ainda teve a grandeza de dizer: “Nem todo amor precisa terminar no altar.”
Em 1963, com 24 anos, Dolores finalizou o filme “Vem Voar Comigo” (Come Fly with Me), de 1963, que seria seu último filme antes de ir para Regina Laudis definitivamente. Lá, ela passou por todos os estágios para se tornar uma freira beneditina. Em 1970 ela fez seus votos perpétuos e, em 2001, foi eleita priora ou líder da comunidade. Pouco depois ela se tornou Madre.

Hollywood jamais a entendeu e achavam que ela estava fugindo de alguma coisa, mas não estava. Sempre lhe perguntaram o que aconteceu e ela sempre respondia a mesma coisa:
“O que descobri é que Cristo está em cada pessoa com quem você convive. Você não o encontra separado das pessoas com quem vive e ama.”
Ela se tornou a primeira freira membro votante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com qualificação para votar no Oscar, mas dentro do mosteiro. A HBO lançou, em 2012, um documentário chamado “God Is the Bigger Elvis” e que foi indicado ao Oscar. Ela ainda escreveu um livro de memórias e construiu um teatro ao ar livre na abadia, com a ajuda de Paul Newman e Patricia Neal.

Ela se tornou Madre, mas não se afastou do mundo. Apenas o via de forma diferente. Hoje ela tem 87 anos e continua vivendo na abadia Regina Laudis há mais de seis décadas.
Ela beijou Elvis Presley em cena quando tinha dezenove anos, realizando o sonho de muitas mulheres. E só foi feliz aos 24 anos, quando passou a viver num mosteiro ao lado de Deus e Jesus.
NOTA:
As origens da Abadia de Regina Laudis remontam à uma França devastada pela Segunda Guerra Mundial. Em 1936, uma jovem americana, Vera Duss (1910-2005), que havia vivido na França durante grande parte de sua vida, recebeu seu diploma de Doutora em Medicina pela Sorbonne. Menos de uma semana depois, ela surpreendeu sua família e colegas ao ingressar na Abadia Beneditina de Notre Dame de Jouarre, perto de Paris, com a intenção de se tornar freira. Com o tempo, recebeu as vestes litúrgicas e o nome de Irmã Bento.

Em 1947, ela deixou a França rumo à América do Norte, acompanhada por sua fiel amiga de Jouarre, Madre Mary Aline Trilles de Warren, O.S.B. (em latim: Ordo Sancti Benedicti), cuja coragem heroica impediu que Madre Bento caísse nas mãos da Gestapo.
Ao chegar ao porto de Nova York com pouco mais do que uma ideia e 20 dólares no bolso, Madre Bento não sabia como ou onde construiria um mosteiro.
Num certo momento, os métodos de liderança da Madre Bento foram questionados e uma investigação do Vaticano foi ordenada. Ela deixou o cargo de abadessa em 1998 e passou os últimos anos de sua vida como abadessa emérita em Regina Laudis, onde morreu em 2005, aos 94 anos. Seu túmulo está no cemitério da abadia e uma biografia da Madre Bento Duss foi publicada em 2007.
Saiba mais sobre a abadia clicando aqui (em inglês).
Texto de Renzo Grosso e adaptações.
