
Intelectual E A Pobreza
Este texto não se aplica a TODOS os que se consideram intelectuais. Só aqueles que parecem gostar da miséria alheia. Muitos que se auto-proclamam “intelectuais” talvez até vivam numa situação semelhante à de quem eles dizem defender e adoram serem “do contra”.
A exemplo desses, mas com viés ainda mais político, podemos apontar que vários municípios não tem muito interesse em erradicar favelas ou áreas de risco, pois não há comprometimento das eventuais verbas que várias prefeituras recebem da União ou estados. Esse repasse, oriundos do FPM (Fundo de Participação dos Municípios), leva em conta, majoritariamente, a população local. Claro que existem outros fatores, mas que são praticamente insignificantes com relação ao total da verba recebida. O crescimento de uma área ocupada favorece o aumento da população e, consequentemente, eleva o percentual de participação no Fundo. Muitos vereadores e políticos tem seus redutos eleitorais em favelas e comunidades e exploram essa miséria com as mais variadas promessas.

O FPM deveria considerar diversos outros fatores como segurança, áreas ocupadas, áreas de risco, educação, saúde, iluminação pública, saneamento, coleta e tratamento de esgotos… e não majoritariamente a população. Ou seja, definir um índice mais moderno e amplo para a distribuição dessas verbas, mas não o faz.
O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, promovido pela ONU) leva em consideração alguns poucos itens como saúde/longevidade, educação, renda e pode funcionar muito bem em vários países, mas nem tanto no Brasil ou em outros em condição semelhante. Só para dar uma noção do que significa esse índice, ele coloca o Brasil, acredite, com IDH=0,8 (numa escala que vai de 0 a 1), que é considerado como “muito alto”. O nosso IBGE publica frequentemente um estudo detalhado das cidades brasileiras e é difícil achar alguma com IDH considerado baixo. Por esse índice a maioria é, no mínimo, regular quando na verdade, sabemos que não é bem assim, pois ele é tão confiável quanto a renda per-capita. No quesito “educação”, por exemplo, é difícil encontrar um adolescente que saiba interpretar um texto simples.
Mas vamos voltar ao assunto principal: os tais “intelectuais” e muitos cineastas brasileiros adoram mostrar a miséria ou o culto à miseriologia – termo informal do idioma português, mas que foi cunhado anos atrás para representar um espetáculo bizarro e não o estudo de uma situação. Por outro lado, outros cineastas e roteiristas, especialmente norte-americanos, mostram maravilhas de seu país e adoram culpar os outros pelos seus problemas. Um exemplo disso é o México que é frequentemente retratado nos filmes hollywoodianos em tons de amarelo, prédios velhos, ruas imundas e população de quinta, para esconder a realidade em que vivem os norte-americanos. Durante a Copa do Mundo 2026, a mídia norte-americana não poupou esforços para mostrar o quão maravilhoso é o seu país. E é mesmo, mas quem esteve lá viu muito mais: sem-tetos acampados em praças e calçadas, pessoas se drogando em qualquer lugar, sujeira, a temida periferia das grandes cidades tomadas por criminosos de todo tipo e muitas outras coisas bem terceiro-mundo num país que é o mais rico do planeta. Ou seja, nada mais “normal” do que visto em qualquer outro país.

No Brasil, o intelectual adora mostrar a miséria nacional para o mundo todo e cobrar melhorias dos políticos, mesmo sem muito afinco e sabendo que vai ficar por isso mesmo. Esse é o verdadeiro “emprego” dessa turma que vive da pobreza e, assim sendo, eles não tem tanto interesse em acabar com a ela.
O filme “Dois Filhos de Francisco”, que mostrou a saga da dupla “Zezé di Camargo & Luciano” vindos do sertão nordestino para vencer na cidade, foi uma exceção à regra: mesmo nos momentos mais modestos da família, a história não mostrava favelas, miséria ou pobreza extrema. Isso também se reflete nas novelas atuais, em que aquela família pobre e negra retratada como moradora de uma favela vivendo em situação paupérrima, agora está vivendo numa casa decente, ainda que numa favela, com comida à mesa e várias outras facilidades. Mentira ? Claro que é ! Mas isso mostra às pessoas de verdade que viver modestamente não é indigno e muitos aprendem com isso. Olhe para uma favela pendurada num morro e você vai encontrar uma casinha simples com cortinas e flores na janela. Certamente esse morador tem a preocupação de viver num ambiente agradável, mesmo que modesto.
Há uma diferença brutal entre favela e comunidade: basicamente uma favela está numa área ocupada, com uma população sem muitos direitos, enquanto uma comunidade vive ou pouco mais ao lado da legalidade e tem algumas melhorias. Mas aqui tudo vira comunidade seja pelo eufemismo, seja pelo politicamente correto que, na realidade, mais confunde do que ajuda.
Nessa mesma direção, há um livro chamado “A Terra Vista Do Céu” (La Terre Vue Du Ciel), do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, mostrando fotografias de locais típicos ou representativos das grandes cidades do mundo. O Brasil está ali representado pelo Rio de Janeiro numa foto, claro, de um morro recheado por barracos de uma favela.

Durante a chamada “Política da Boa Vizinhança” liderada pelo então presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, o saudoso Walt Disney foi chamado para fazer uma animação longa-metragem que se chamava “Alô Amigos”, com personagens típicos de vários países da América do Sul, criados por Disney e que representavam o espírito de cada país. O personagem brasileiro era um papagaio chamado Zé Carioca: malandro, morava no morro e odiava trabalhar.
Esqueça o Cristo Redentor, Pão de Açúcar, floresta amazônica… o retrato do Brasil é mesmo esse.
Texto de Renzo Grosso
Notas:
Anos atrás, ainda quando se usavam as antenas parabólicas para ter acesso aos canais internacionais, a CNN transmitia, nos intervalos dos tele-jornais, várias peças publicitárias de países como Vietnã, Camboja, Índia e muitos outros, mostrando a tecnologia e o desenvolvimento deles, com a finalidade demostrar para o mundo o quanto aqueles países estavam alinhados com a modernidade e que mereciam investimentos sérios. O Brasil resolveu fazer o mesmo, já que toda publicidade nacional se resumia a futebol, samba, carnaval e mulher na praia.
Meses depois, assisti aos novos comerciais do Brasil na CNN: futebol, samba, carnaval e mulher na praia.
É preciso dizer mais ?
