O Conhecimento Científico Islâmico

Cotidiano

Até meados do século XIII, o Islã era um paraíso de sabedoria em praticamente todas as áreas de conhecimento, a ponto de considerarem os europeus como um povo “atrasado”.

Além de desenvolverem teorias originais, esses estudiosos traduziram, salvaram e expandiram o conhecimento da Antiguidade (como os textos gregos e persas). Esse acervo foi eventualmente transmitido para a Europa Ocidental, servindo como uma das bases essenciais para o Renascimento e a Revolução Científica.

Busto de Al Biruni (imagem de Kübra Aydın)

A busca pelo saber estava profundamente enraizada nos textos religiosos. O conhecimento (especialmente a leitura e a observação da natureza) é um pilar no Islam. Diferente de outras regiões na mesma época, a e a ciência andavam juntas, pois os estudiosos viam o estudo do mundo natural como um meio de compreender a criação divina e os sinais de Alá.

A “Sabedoria” islâmica começou a dar sinais de fadiga por vários motivos. Eis alguns:

– A invasão do Império Mongol no século XIII (1258) e o Cerco de Bagdá onde bibliotecas foram destruídas ou incendiadas e os observatórios foram demolidos, o que levou ao fim os verdadeiros “centros de saber”.
– Também as questões políticas com a divisão do mundo islâmico em reinos menores (otomanos, safávidas, mogóis…)
– Questões econômicas colaboraram com a alteração das rotas comerciais reduzindo bastante a pesquisa científica.
– A ascensão do pensamento religioso, que passou a dar mais atenção à teologia, deixando as ciências e a filosofia de lado.
– A Europa Ocidental fez o seu próprio desenvolvimento tecnológico, com muito do conhecimento dos enfraquecidos impérios muçulmanos medievais. O colonialismo europeu e a Revolução Industrial foram fatores que levaram o conhecimento científico a avançar no continente.

Mongol – ArtHouse Studio

Essa atividade científica islâmica não foi extinta totalmente, mas a chamada “Idade de Ouro do Islã“, começou a cair já no século XIII. O conhecimento continuou, mas com bem menos intensidade e o declínio aconteceu entre os séculos XII e XVI, através de vários fatores políticos, econômicos e religiosos, como os já descritos acima.

Hoje, a herança desse conhecimento (que preservou e expandiu os saberes da antiguidade em matemática, astronomia, medicina e filosofia) faz parte da história global e a busca pelo saber continua viva e presente nos diversos centros acadêmicos e religiosos do mundo muçulmano contemporâneo. E não foram poucas as contribuições:

Matemática e Álgebra:
Os estudiosos muçulmanos introduziram o sistema de numeração decimal e o conceito do zero (originários da Índia), além de fundarem e desenvolverem a álgebra e a trigonometria. O termo “álgebra” deriva do livro de Al-Khwarizmi, enquanto “algarismo” vem de seu próprio nome.

Medicina e Farmacologia:
A medicina islâmica destacou-se por hospitais pioneiros e grandes avanços na anatomia e oftalmologia. O médico e filósofo Ibn Sina (Avicena) escreveu “O Cânon da Medicina“, obra de referência global por séculos.

Astronomia e Física:
Foram criados observatórios estelares e instrumentos como o astrolábio, essenciais para a navegação e para o cálculo de tempos de oração. Na óptica, Ibn al-Haytham (Alhazen) descreveu o funcionamento da visão e é considerado um dos pais do método científico experimental.
Integração de Conhecimentos: Centros de saber, como a Casa da Sabedoria em Bagdá, promoveram a tradução e preservação de obras da Antiguidade (Grécia, Índia e Pérsia), fundindo-as com observações empíricas próprias.

Busto de Omar Khayyam – Crédito da foto: Plato Terentev

Alguns Nomes:
Albiruni ou Al Biruni
Nasceu em 973 em Khwarezm, no Uzbequistão, e viajou pela Ásia Central fazendo observações astronómicas e geográficas, estudou e a escrever. Era um verdadeiro polímata e aprendeu línguas, estudou culturas e muito mais. Dedicou boa parte de sua vida à matemática e astronomia. Deixou um total de 150 manuscritos de um total e alguns sobreviveram até hoje. Dedicou-se a trabalhos sobre medicina e farmacologia, geologia, teologia e filosofia. Muito antes de Galileu, ele narrou o princípio da “invariância das leis da natureza”, que significa que todo o universo está sujeitos às mesmas leis naturais.
Morreu em Ghazna, Afeganistão, por volta de 1050.

Omar Khayyam:

Foi um poeta e matemático persa que calculou o comprimento do ano dentro de cinco casas decimais. Ele encontrou soluções geométricas para todas as 13 formas de equações cúbicas. Ele desenvolveu algumas equações de segundo grau ainda em uso. Ele é bem conhecido no Ocidente por sua poesia que foi compilada e traduzida pelo inglês Edward Fitzgerald, em 1859, do livro intitulado Rubayat.

Não se sabe, exatamente, o que causou essa falta de novos trabalhos e o consequente “atraso” no conhecimento científico do Islã. Apenas suposições que apontam para este ou aquele episódio.

Texto de Renzo Grosso, com adaptações.

As imagens são so site pexels.com.
A imagem de capa é de Kübra Nûr Şahin

Deixe um comentário