
História Perdida – Phyllis Doyle
Phyllis Latour Doyle nasceu em 1921 na África do Sul, filha de pai francês e mãe britânica. Ficou órfã aos quatro anos e foi criada por um tio no Congo Belga, onde aprendeu a explorar e tomou gosto por isso. Passou a juventude viajando enquanto o tio trabalhava para impedir o contrabando de marfim.

A forma como foi criada lhe permitiu independência, uma qualidade que lhe seria muito útil no futuro. Ela era fluente em inglês, francês e algumas línguas africanas e estudou no Quênia antes de ir para a Europa em 1939. Ingressou na Força Aérea Auxiliar Feminina em 1941, para auxiliar na guerra e logo ela foi recutada para o Special Operations Executive (SOE), o serviço secreto britânico.

Como os agentes homens eram frequentemente descobertos, era preciso alguém acima de qualquer suspeita. Ela treinou nas Terras Altas da Escócia onde aprendeu radiocomunicação, código Morse, luta corpo a corpo, uso de armas e técnicas de sobrevivência. Dizem que havia até mesmo um bandido na equipe, ou coisa assim, que lhe ensinou a escalar muros e sumir sem deixar rastros.

Quando, enfim, estava pronta para a ação, ela se posicionou na porta de um bombardeiro, observando a noite da Normandia. Então ela saltou. Em solo, escondeu o paraquedas, reorganizou suas coisas e passou a ser Geneviève, uma vendedora de sabão. Ela usava roupas simples e agia como uma adolescente sem que o inimigo suspeitasse dela.
Em poucos segundos, ela estava completamente sozinha em território ocupado, com sua bicicleta, um rádio clandestino e toda a preparação para cumprir uma das missões mais perigosas da Segunda Guerra Mundial. Não era fácil enganar o Reich, pois em 1944, os agentes enviados eram capturados e executados sumariamente. Ela tinha apenas 23 anos, faltando apenas cinco dias para o DIA D, e conseguiu se esgueirar entre os alemães por 135 dias passando por situações delicadas em que ela quase foi descoberta.
Durante esse tempo, ela cruzou a França ocupada passando por estradas rurais e pequenas aldeias, sempre na sua fiel bicicleta.
Conversava com soldados alemães fingindo vender sabão e observava atentamente o movimento das tropas, dos veículos, armamentos e demais posições militares. Mais tarde e escondida, ela montava seu rádio e mandava as informações para Londres.
Ela não podia ficar muito tempo no mesmo lugar, pois a Gestapo tinha equipamentos que localizavam essas transmissões clandestinas. Mandar mais de uma mensagem do mesmo lugar era o mesmo que pedir para ser morta ou capturada. Phyllis sobrevivia com o que encontrava pelo caminho e os códigos das transmissões estavam em fitas de seda, que ela usava para prender seus cabelos. Ela chegou a ser revistada por soldados alemães num posto de controle, que revistou a bicicleta e suas roupas. Um deles ainda quis olhar bem para aquelas fitas e ele nada encontrou.

Durante os 135 dias da missão, ela enviou 135 mensagens, bem mais do que qualquer outro agente do SOE atuando na França, e em cada transmissão dava mais um golpe certeiro no Terceiro Reich. Essas mensagens orientaram bombardeios, movimentação das tropas alemãs e auxiliaram a invasão da Normandia, o famoso DIA D.
No dia 25 de agosto de 1944, e a libertação de Paris, sua missão chegou ao fim. Ela resistiu onde muitos não duravam poucas semanas.
Ao fim da guerra ela passou a usar o nome “Pippa“, foi para a Nova Zelândia, casou, teve quatro filhos e jamais disse uma palavra sobre o que ela fez. Foram precisos mais de cinquenta anos e, em 2000, um de seus seu filhos descobriu que mamãe tinha sido uma das mais espetaculares agentes do SOE.
Questionada sobre seu passado, ela respondeu com simplicidade:
“Sim, fui uma espiã. Sim, saltei de paraquedas. Sim, fiz a minha parte.” E disse isso sem buscar reconhecimento ou fama.
Em 2014, e com 93 anos, ela recebeu da França o título de Cavaleira da Legião de Honra, hoje Ordre national de la Légion d’honneur, que é a mais alta e prestigiada condecoração da República Francesa e que foi instituída em 1802 por Napoleão Bonaparte. Essa honraria foi dada à discrição e à coragem de uma jovem que, décadas antes, cruzou a Normandia de bicicleta, enganando o exército mais poderoso da Europa.

Phyllis Latour Doyle morreu em 2023, aos 102 anos. Ela sobreviveu a Hitler, à Gestapo e ao anonimato da própria história.
Mas nem tudo eram lírios na vida de Phyllis. Ao retornar para a Inglaterra, ao final da guerra, ela e várias outras agentes se depararam com a total falta de interesse em ajudá-las. A historiadora Clare Mulley declarou: “Após a emoção da resistência clandestina em território ocupado pelo inimigo, muitos ex-agentes da SOE tiveram dificuldade em se adaptar ao que um deles chamou de ‘os horrores da paz’“, acrescentando que os agentes da SOE não recebiam nenhum apoio ou aconselhamento para ajudá-los na adaptação e haviam poucas oportunidades para que pudessem utilizar suas excepcionais habilidades em campo.
Foram 39 agentes femininas recrutadas pela SOE e que foram a campo na França. Phyllis Latour – Pippa Doyle – foi a última sobrevivente.
Fonte: Imperial War Museums
Texto de Renzo Grosso
