
Guia Quatro Rodas
O Guia Quatro Rodas, editado anualmente de 1965 até 2014, era formado por vários outros guias rodoviários e que eram produzidos pela então poderosa Editora Abril. Além do “Guia” propriamente dito, ainda haviam outros guias exclusivos de determinadas cidades, outro de praias, outro de rodovias, etc… Quem tem mais de 50 anos, já precisou usar o Guia Quatro Rodas para viajar. E tem saudades dele !

Era um guia completo e foi crescendo e ampliando, ano a ano, as cidades visitadas. Numa época em que nem se pensava em internet ou GPS, nem nada ao alcance da mão, ele listava hotéis, restaurantes, estradas, indicava passeios, atrações, hospitais, postos de gasolina e muitas outras coisas. O Guia classificava os hotéis com “casinhas” e os restaurantes com “talheres“, porque a Embratur proibiu o Guia de usar “estrelas” alegando que essa nomenclatura internacional era atribuição exclusiva dela, Embratur. De fato, a Embratur chegou a fazer isso por algum tempo, mas parou e ninguém sabe bem o porquê. Dizem que essa avaliação e placas indicando as estrelas, não interessava aos hotéis com menos de cinco, além do que os critérios de avaliação eram bem vagos. Ou seja, o lobby dos hotéis ganhou a briga que o “Guia” perdeu. Uma pena, pois o “Guia” era bem mais confiável !
Segundo relatos de antigos colaboradores, o “Guia” era um projeto pessoal do então fundador da editora Abril, Victor Civita (1907-1990), e se baseava nos guias Michelin. Ele achava que o Brasil precisava de alguma coisa naquele sentido e o fez. Segundo consta, o “Guia” nunca foi lucrativo, pois era “sério demais” e usava linguagem neutra. Definia restaurantes simples, elegantes ou caros com as mesmas palavras e o mesmo tom. E acrescentava telefones, endereços, pratos principais, cartões, manobristas… sem alardear ou indicar coisa alguma. A escolha era toda sua ! Os colaboradores do “Guia” visitavam os locais com certa frequência e consta que pagavam integralmente suas despesas, sem se identificar.

Ainda na questão dos restaurantes, haviam as “estrelas culinárias” (de uma a três, que a Embratur não conseguiu proibir) que representavam a qualidade da cozinha e os cifrões (de um a cinco) que avaliava o custo médio de uma refeição no local. Era normal esperar ansiosamente pelo lançamento da edição para saber quais locais ganharam estrelas ou perderam, além da eleição do Chef do Ano.

Vale destacar que essas “estrelas culinárias” se concentravam nas capitais dos estados ou cidades mais importantes e raramente saiam delas. Um restaurante que merece destaque é o Le Bistrô, de Quiririm (próximo a Taubaté, em SP), que ostentava uma estrela do “Guia” e era o único do estado que ficava fora dos grandes centros.
Mas o “Guia” não acompanhou (ou não conseguiu acompanhar) a evolução digital e foi facilmente atropelado pelos inúmeros sites de viagens como o hoteis.com, trivago, decolar… e sua edição física foi descontinuada. O “Guia” era também uma extensão da revista Quatro Rodas, editada mensalmente, e que continua sendo publicada com foco em notícias automotivas e testes de veículos.
Finalmente a Editora Abril foi vendida em 2018, bastante endividada e já sem alguns de seus maiores sucessos. Ela foi repartida em diversos segmentos e, um exemplo dessa diretriz, foi a venda da revista Exame para o BTG-Pactual.

Enquanto isso, a Abril continua editando algumas revistas que fazem referências ao antigo “Guia”. A revista Veja, que já foi o grande carro-chefe da editora, traz uma avaliação anual chamada “Veja Comer & Beber” com inúmeros restaurantes “bem avaliados” (sim, com aspas) e vários chefs revelação (mais de um, o que está certo). Tudo é avaliado: da coxinha ao “foie gras”, passando pelo melhor restaurante italiano, melhor cantina italiana, melhor francês, melhor boteco, melhor isso, melhor aquilo… Ao que tudo indica, para ganhar um prêmio, basta participar de alguma coisa. Digo isso porque já vi “avaliações” absurdas e até a versão nacional do “Guia Michelin” parece ter sido contaminada.
Enfim, o “Guia” nasceu para ser o guia definitivo do país e logo se tornou uma referência histórica para viajantes e motoristas, numa época que não havia nada que auxiliasse. Mas não se adaptou às novas tecnologias.
Texto de Renzo Grosso
