
Hamnet – O Filho de Shakespeare
Hamnet, livro e filme, são obras que podemos chamar de “drama baseado em fatos reais”. Filho de William Shakespeare, um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, Hamnet era irmão gêmeo de Judith, segunda filha de Shakespeare.

Em 1596, Hamnet faleceu, com 11 anos de idade e está enterrado no cemitério da Santíssima Trindade, em Stratford-upon-Avon. Não se sabe se Shakespeare compareceu ao funeral do próprio filho, pois estava em viagem com seu grupo de teatro e talvez não tenha sido informado a tempo de comparecer.
Especula-se que Hamnet morreu devido à peste bubônica. Não se sabe ao certo a causa da morte, mas sabemos que toda a Europa estava sofrendo com a doença, que vitimou milhões de pessoas. Somente em Londres foram entre 75.000 e 100.000 mortos. Há quem afirme que ele morreu afogado, mas o consenso é que tenha sido mesmo a peste.
Shakespeare ficou bastante abalado com a morte prematura do filho e isso também se sentiu na sua família. Ele foi duramente criticado pela falta e, dizem, seu luto está presente em várias de suas obras como “Conto de Inverno” e “Rei Lear“. O filme recém-lançado e forte candidato ao Oscar deste ano (2026), “Hamnet – A Vida Antes De Hamlet“, insinua que a peça “Hamlet” foi escrita com inspiração em Hamnet, já que ambos os nomes soam semelhantes e são consideramos os mesmos na Inglaterra, mudando apenas a grafia.

Ele começou a escrever a peça “Hamlet” em 1599, três anos após a morte do filho, e é considerada a grande obra do mestre. Essa época também ficou marcada como uma das mais produtivas da carreira de Shakespeare e a ligação ente a morte de Hamnet e a peça é bastante debatida, mas nunca comprovada.
Mas, de volta ao filme de Chloé Zhao, ele é baseado no romance de Maggie O’Farrell, escrito em 2020. Curiosamente, a mulher de Shakespeare, Anne Hathawey (homônimo da artista norte-americana), é chamada de Agnes. Na certidão de casamento aparece o nome Anne, mas no testamento do pai, ela é chamada de Agnes, daí o fato de o filme usar esse nome. Também a título de curiosidade, num certo momento, o filme mostra o túmulo e a lápide de Hamnet e, mais atrás, há uma outra lápide sem data e com o nome de Anne. Imagino que isso seja uma referência à própria mãe dele que faleceu anos depois, em 1623, e foi sepultada ao lado do filho. A atriz que viveu Agnes, Jessie Buckley, teve uma atuação pra lá de fantástica e, sem dúvida, merece a indicação ao Oscar de melhor atriz.

Sabe-se muito pouco sobre a vida de Shakespeare e a maior parte das coisas vieram de estudos históricos. No caso de Hamnet, a história é real, ele realmente existiu, faleceu e provocou luto e dor intensa para seus pais. Mas é só o que sabemos. Mesmo assim há quem afirme que o bardo jamais existiu e que ele era, na verdade, um nobre inglês que escrevia com esse pseudônimo e ficou na miséria por razões não muito bem explicadas. Existe até um filme chamado “Anônimo“, de 2011 e dirigido por Roland Emmerich, que coloca o nobre Edward de Vere, o então Conde de Oxford, vivendo como Shakespeare, para o deleite dos teóricos da conspiração.
A imaginação voa longe! Não há nem mesmo uma imagem de Shakespeare e a única que temos, é apenas atribuída a ele sem que haja uma certeza. Dizem que Shakespeare era um pobre coitado de Stratford-upon-Avon e que não teria recursos e nem estudo suficiente para escrever tão impecavelmente sobre alguma coisa. Por essa razão é que acreditam que ele deveria ser alguém da aristocracia ou nobreza, no mínimo, e com grande conhecimento do idioma inglês que é utilizado em suas peças. Aí vem a “teoria” e o filme “Anônimo” repleto de absurdos que mais diverte do que ensina. Esse filme não é nada mais do que um thriller de época e não se esqueça disso, caso assista.

Licenças poéticas à parte, a peça “Hamlet”, foi escrita segundo uma lenda escandinava do século XIII, centrada num príncipe dinamarquês chamado Amleth. Essa lenda está documentada pelo cronista dinamarquês, de nome bastante esquisito, chamado Saxo Grammaticus (1150-1220, historiador da Dinamarca medieval) em sua obra Gesta Danorum (“Os Feitos dos Dinamarqueses”). Cerca de 400 anos antes de Hamlet, de Shakespeare.
Texto de Renzo Grosso
