
Dickens
Charles Dickens é visto como um dos maiores escritores da literatura, um homem que retratou a pobreza, a crueldade e a injustiça. Mas sua vida particular não mostra mesmo homem.
Catherine Hogarth era culta, jovem e bonita de 20 anos, quando conheceu Charles Dickens em 1835 e que era ainda um completo desconhecido. O pai de Catherine era editor, musicólogo, crítico musical e proprietário de uma editora de música. Charles sonhava em ter uma família, uma esposa e uma mãe para seus filhos. E ela lhe deu dez, mas enterrou três deles.

Um ano depois, eles se casaram e foram felizes. Charles a chamava de “Metade da minha laranja”, “esposinha”, “Sra. D.”.
Em 1836, com 21 anos, Catherine se casou com Dickens. Ela cuidou da casa, dos filhos e sustentou um marido que ficava cada vez mais famoso. Por dezesseis anos ela fez dez partos. Três morreram ainda na infância e ela ainda continuou a cuidar da família e retomou a sua vida doméstica.
Em 1837, nove meses depois de casarem, nasceu o primeiro filho: Charles Jr. Catherine ficou doente e teve dificuldades para alimentar o bebê, de tão fraca que ficou.
Dickens estava orgulhoso com o herdeiro. E assim continuou até o quarto filho. No quinto, já não estava gostando tanto.
“Parece que vamos celebrar o Ano Novo com mais outra criança. Ao contrário do rei de um conto de fadas, oro implacavelmente aos Reis Magos que não se preocupem mais, porque já tenho o suficiente. Mas eles são excessivamente generosos com aqueles que mereceram o favor deles!”
Entre uma gestação e outra, Catherine mostrava que era capaz de ser não apenas mãe e esposa. Ela se apresentou em montagens amadoras das peças de Dickens e ainda escreveu um livro “O que temos para o jantar?”, que foi publicado em 1851. Entre outras coisas, eram as receitas dos pratos favoritos de Charles.

Antes do quinto filho, eles viajaram para a América. Uma viagem difícil e também perigosa, que ela mostrou ser uma mulher firme. Numa carta a um amigo, Dickens escreveu:
“Ela superou as primeiras dificuldades que nos apresentaram nas novas circunstâncias e acabou por se revelar uma verdadeira viajante. Ela nunca reclama, nem demonstra medo, mesmo quando eu o consideraria justificado. Nunca fica desanimada, nem desce, mesmo que passemos por terras muito duras por mais de um mês sem parar; ela se adapta docilmente a qualquer circunstância e me agrada com a evidência de sua coragem”.
E veio, então, o quinto filho: Francis Jeffrey, que nasceu em 1844. Ela abortou duas vezes e Dora, uma de suas filhas, morreu com 8 meses.
Dickens se irritava cada vez mais com Catherine, pois a culpava por esse excesso de fertilidade. A partir daí ele dizia que Catherine não era a mulher que ele sonhava. Segundo ele, ela estava limitada, gorda, feia, nervosa, chorona, ciumenta e péssima mãe.

Na primavera de 1858, um bracelete foi entregue, por engano, na casa dela. Era um presente destinado a uma jovem atriz de 18 anos, Ellen Ternan. Catherine fez um escândalo e recebeu uma explicação tão simples quanto mentirosa: “dar presentes às atrizes que participam da interpretação de suas peças é uma prática comum, e você, querida esposa, é muito ciumenta e me atormenta com essas cenas horríveis”. Ele ainda exigiu que Catherine fosse à casa de Ternan e, não apenas lhe entregasse o bracelete, como ainda lhe pedisse desculpas pelo escândalo. Foi a gota d’agua !
Ainda assim, Dickens não teve pena. Naquela época, um divórcio seria a pior coisa que poderia acontecer para os dois, ainda mais com a fama e notoriedade dele. Então Dickens tratou de eliminar Catherine de sua vida e, depois de vinte e dois anos de casamento, ele a colocou para fora de casa. Ele ainda se mostrou a vítima de um casamento infeliz e apontava Catherine como a razão de todo o seu sofrimento. E todo mundo acreditou nele.
Ela perdeu sua casa e a maioria de seus filhos, que preferiram o pai. A irmã de Catherine, Georgina, ainda foi ajudar Dickens a criar as crianças o que, para ela, foi algo mais que doloroso. Ainda assim, Charles lhe custeava a moradia e o sustento enquanto vivesse.

Ela passou o resto da vida vivendo com dignidade, mas esquecida pelo mundo. E só se preocupou em guardar uma coisa: as cartas que Dickens lhe escrevera quando ele era pobre e ela era tudo para ele.
Catherine morreu em 1879, nove anos depois de Charles. Pouco antes, ela teria pedido a Kate (uma de suas filhas) que as tais cartas fossem publicadas, para mostrar o quanto Charles a amou. Ela teria dito: “Entregue ao Museu Britânico, para que o mundo saiba que ele me amou por um tempo”. E isso só aconteceu em 1935, quando Dickens já era um grande escritor e um gênio da literatura.
Catherine foi enterrada no cemitério de Highgate, em Londres, onde também estava sua filha Dora.
Dickens sabia muito bem como escrever sobre a injustiça. Mas se considerava uma vítima do que acontecia na sua própria casa.
Sabe-se que Charles Dickens conheceu Ellen um ano antes daquele “engano” e ele alugou um apartamento para ela, a mãe e suas irmãs. Ela o acompanhava a todos os lugares e, segundo consta, eles só se tornaram amantes cinco anos após o divórcio de Charles.

Notas:
O escritor falou publicamente sobre o divórcio de sua esposa em 1858, para uma revista.
Apenas o filho mais velho, Charles, ficou com Catherine. As outras crianças, conforme a Lei, ficaram com o pai.
Charles Dickens não gostava que os filhos falassem com a mãe, mas nunca os proibiu de verdade.
Ela não foi convidada para os casamentos das filhas. E ninguém disse à ela que Walter, seu quarto filho, havia morrido.
Mais tarde, Kate escreveu o seguinte sobre sua mãe:
“Não havia nada de terrível com minha mãe. Ela, como todos nós, tinha seus defeitos, mas era uma pessoa gentil, doce, bondosa e uma verdadeira dama. Minha pobre mãe tinha medo do meu pai, ela não tinha o direito de expressar sua opinião. Nunca foi autorizada a dizer o que sentia”.
Ela dizia que “Ele (Charles) me amou um tempo”.
E ele repetia “Eu nunca voltarei a ser tão feliz como naquele apartamento no terceiro andar, mesmo que eu consiga muita fama e fortuna”.
Texto de Renzo Grosso, com adaptações de várias publicações.
