
Messalina
Uma das mulheres mais famosas – ou infames, em certo sentido – da Roma antiga é Valéria Messalina.
Durante séculos, seu nome foi um símbolo de corrupção, luxúria e tudo de sórdido que se possa imaginar. Hoje, no entanto, muitos historiadores estão reabilitando a figura dessa jovem imperatriz, situando suas ações no contexto político da época e reconhecendo que muitos cronistas exageraram em seus relatos.

Valeria Messalina nasceu por volta de 17 DC em uma família proeminente, aparentada com a família Júlio-Claudiana. Aos 14 anos ela se casou com um homem de cinquenta anos.
O homem era Tibério Cláudio César Augusto Germânico e quem decide o destino da jovem Messalina é ninguém menos que o Imperador Calígula, um jovem perturbado que se vê no trono apesar de estar claramente insano. Cláudio é tio de Calígula, um homem bom, culto e não exatamente charmoso, uma figura um tanto marginalizada por todos na corte. E, no entanto, quando Calígula encontra o destino de todos os ditadores cruéis, eliminado pelas mesmas pessoas que até meia hora antes o elogiavam, Cláudio se torna imperador.
Com dezesseis anos, Messalina se vê imperatriz de Roma e é natural que isso a deixe um pouco inquieta. Ela era inexperiente, jovem e agitada, e todos estão à sua mercê. Além disso, Valéria era belíssima — alguns dizem que era “a mais bela de Roma” — e Cláudio tem outras ambições. Ele quer compensar as décadas em que foi intimidado por seus defeitos físicos e sua gagueira, e alcançar a fama na Bretanha.
As histórias que começaram a circular sobre a jovem são sórdidas e inacreditáveis. Diz-se que, em vez de passar a vida nos vícios da corte, ela praticava a antiga profissão às escondidas num bordel. Mantinha relações impróprias com os irmãos e entregava-se a praticamente qualquer um que lhe caísse nas mãos. Plínio, o Velho, numa competição para ver quem contava a maior mentira, afirma que Messalina desafiou a maior prostituta romana e venceu com 25 encontros num só dia. Claro que tudo isso carece de fontes.

Dizia-se que “lassata, viris nondum satiata, recessit” (“cansada, mas não satisfeita com os homens, ela parou”). A verdade é que a história de Messalina foi contada por historiadores que viveram décadas após sua morte, os quais narraram histórias absurdas baseadas, na melhor das hipóteses, em boatos ou em invenções. O objetivo sempre foi político, explorando as complexidades das sucessivas dinastias, e Messalina é um alvo conveniente: jovem, poderosa e — o mais importante — não pode se defender.
A verdade provavelmente é bem diferente, como demonstra a história que marca o fim de Messalina. A jovem, casada muito cedo, nunca conheceu o amor, e quando conhece Caio Sílio, cônsul designado no ano 13 DC, perde a paciência. Caio tem 35 anos e aparentemente era muito bonito, além de bem-sucedido.
Relacionamentos fora do casamento são bem tolerados e Cláudio não parece se importar muito. Messalina, no entanto, fica tão cativada por esse sentimento desconhecido que o leva longe demais. Enquanto Cláudio está ausente, durante um festival dionisíaco, Valéria e Caio encenam um casamento simbólico. Provavelmente é uma brincadeira trivial, uma piada sem consequências, mas Messalina torna-se vítima de uma série de conspirações.

Narciso, um liberto de Cláudio, relata a história ao imperador acrescentando detalhes e colocando-o contra sua esposa. É provável que Narciso esteja agindo a mando de Agripina, sobrinha de Cláudio e mãe do futuro imperador Nero. Ela está tão ambiciosa que, assim que se libertar de Messalina, ela mudará uma lei e se casará com Cláudio.
Seu objetivo era colocar Nero no trono e torná-lo seu fantoche. Ele consegue, após envenenar Cláudio, mas seu filho demonstra ter herdado seus genes. Em 48 a.C., no entanto, o obstáculo é Messalina. Cláudio está convencido de que sua esposa e Caio querem tomar o trono dele e ordena sua morte.
Messalina, com apenas 31 anos, refugiou-se nos Jardins de Luculla e foi executada pelo próprio Narciso. A lenda acrescenta uma frase improvável, porém pitoresca, do carrasco: “Se a tua morte for lamentada por todos os teus amantes, então metade de Roma chorará!“. Talvez Narciso estivesse sofrendo por estar na metade errada, quem sabe.
Texto extraído de publicações com adaptações de Renzo Grosso
